Signs Nordeste - MaquintexNOTÍCIASSustentabilidade Algodão brasileiro consome menos água, mas uso de agrotóxicos preocupa, indica relatório

Algodão brasileiro consome menos água, mas uso de agrotóxicos preocupa, indica relatório

Cultivado em sua maioria em lavouras de sequeiro, o algodão brasileiro se caracteriza por uma menor utilização de água em seu processo produtivo. De outro lado, dados indicam que a cultura é a quarta que mais utiliza agrotóxicos na agricultura brasileira, o que é um ponto de atenção. É o que aponta um relatório feito pela mídia independente Modefica em parceria com o Centro de Estudos de Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e a consultoria Regenerate Fashion.

O trabalho, chamado de Fios da Moda, é uma compilação de dados e estudos nacionais e internacionais sobre questões ligadas à sustentabilidade das principais fibras usadas na indústria da moda. A publicação reúne trabalhos feitos ao longo de vários anos. Além do algodão, o relatório analisa também as cadeias produtivas da viscose (tecido à base de fibra de celulose) e do poliéster (de base petroquímica).

A partir dessa revisão da literatura, os pesquisadores propõem uma análise quantitativa e qualitativa dos ciclos de vida dessas fibras. Justificam a produção do relatório no que chamam de necessidade de transformação na indústria têxtil e em um déficit de fontes de dados que sejam abertas e disponíveis. Com isso, a intenção é facilitar o acesso a essas informações sobre impactos sociais e ambientais.

Sobre a cultura de algodão, o relatório aponta que a fibra é mais largamente estudada em seus aspectos sociais e ambientais em comparação com a viscose e o poliéster. Os trabalhos consideram aspectos como mudanças climáticas, consumo de água, toxicidade, uso da terra e uso da energia.

Reunindo informações sobre esses diversos estudos nacionais e internacionais, o relatório Fios da Moda destaca que, em nível global, 53% das lavouras de algodão são irrigadas, o que corresponde a 73% da produção. O consumo médio nessa produção é calculado em cerca de 10 mil litros de água por quilo de fibra produzida. O sistema mais utilizado é de inundação de sulco, considerado menos eficiente.

“As técnicas utilizadas nessa fase podem contribuir para aumentar ou reduzir o consumo de água, por exemplo: estima-se que a irrigação por gotejamento reduza a quantidade de água utilizada em pelo menos 16 a 30% em comparação com os sistemas de inundação ou sulco”, menciona o relatório, com base em trabalho publicado em 2014.

Mas, no Brasil, o consumo de água chega a ser quatro a cinco vezes menor do que o relatado em estudos internacionais. Considerando o ciclo que os responsáveis pelo relatório chamam de berço ao túmulo (do algodão no campo até o produto final), o consumo médio é de 2,33 mil litros por quilo de fibras. Considerando do berço ao portão (apenas o ciclo produtivo da matéria-prima), é ainda menor: 1,7 mil litros por quilo de fibra produzida.

“As características específicas da produção brasileira parecem ser muito influentes para o consumo de água na cultura do algodão”, cita o Fios da Moda. “Predomina no Brasil o cultivo de algodão em sequeiro, sem irrigação artificial. Essa peculiaridade da produção nacional diminui drasticamente o consumo de água nessa etapa do ciclo de vida dos vestuários”, menciona o relatório, citando publicação de 2012.

O Fios da Moda destaca ainda, com base em publicações de 2018 e 2019, que a cadeia produtiva do algodão brasileiro tem investido em rastreabilidade de sua produção. O relatório menciona que, atualmente, o Brasil é o maior fornecedor mundial de algodão de acordo com os critérios de certificação BCI (Better Cotton Initiative). E na safra 2018/2019, 75% da fibra foi produzida de acordo com esses critérios, inseridos no programa Algodão Brasileiro Responsável (ABR).

“O país tem investido em rastreabilidade e certificação para garantir uma produção com menor impacto ambiental. O Brasil é o maior produtor mundial de algodão certificado Better Cotton Initiative (BCI), respondendo por cerca de 30% do volume total de algodão BCI”, diz o Fios da Moda.

Por outro lado, o relatório feito pela Modefica, FGV e Regenerate Fashion alerta para a utilização de agrotóxicos para o controle de pragas e doenças. Mencionando trabalho feito em 2017, o documento destaca que a lavoura da fibra é a quarta maior usuária de produtos químicos na agricultura brasileira. A média calculada naquele ano era de 28 litros por hectare, cerca de 10% do volume total usado no país.

“O impacto do uso de pesticidas é motivo de grande preocupação, devido ao alto potencial de afetar a saúde humana e o meio ambiente”, pontua.

 

Algodão agroecológico

O relatório Fios da Moda menciona trabalhos que são críticos à produção em “sistema de monocultura”. E cita o modo de produção orgânica em sistema agroecológico, que ainda representa uma parcela muito pequena da oferta global da fibra. De acordo com o relatório Organic Cotton Market, de 2019, citado no relatório, a participação é de apenas 0,7% com apenas 356 mil hectares certificados.

Com base em dados de 2018, a Índia respondeu por 47% da produção mundial de algodão certificado como agroecológico, seguido por China (21%), Quirguistão (12%) e Turquia (6%). O Brasil aparecia em 16º no ranking, com participação de 0,01% na produção global. A produção de algodão orgânico naquele ano foi de 22 toneladas.

“É importante considerar que a maior parte da produção brasileira de algodão orgânico está concentrada na região semiárida do país, principalmente nos estados de Paraíba, Ceará, Rio Grande do Norte, Piauí e Pernambuco”, informa o Fios da Moda, citando a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa).

De acordo com o relatório, a produção agroecológica de algodão orgânico no Brasil tem sido feita por meio de consórcios apoiados por instituições e empresas. E a demanda por esse tipo de produto vem aumentando tanto por compradores já existentes quanto por novas empresas, que tem suas visões de mercado associadas à sustentabilidade.

“Cresce também o interesse pelo cultivo do algodão orgânico de fibra colorida na região Nordeste do Brasil. Nessas condições, além de evitar o uso de fertilizantes sintéticos e pesticidas, a produção dispensa o tingimento artificial e contribui para o meio ambiente”, destaca.

Esse sistema produtivo, menciona o relatório, se caracteriza, principalmente pelo uso de fertilizantes orgânicos, controle biológico de pragas, consórcio com outras culturas e colheita manual.

Estudo de 2014, encomendado pela Textile Exchange – e citado no relatório Fios da Moda – com base na avaliação do ciclo de vida do algodão na Índia, Turquia, China, Tanzânia e Estados Unidos, indicou uma redução de 91% no consumo de água e de 62% no de energia em comparação com o algodão convencional. Mas a produtividade foi de 1,84 tonelada por hectare.

FONTE: GLOBO RURAL

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